sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Consciência embriagada.

Era sexta-feira. E mais uma vez Thiago estava em um bar medíocre, enchendo a cara de vodka. Assim pura mesmo, que é pro efeito ser mais rápido. Que é pra subir logo a cabeça e embaralhar todos os pensamentos e sentimentos. Rodeado de amigos que nem são tão amigáveis, mas se for pra beber, eles estão ao seu lado. Assim são seus finais de semana. Por aí, bebendo em algum lugar, qualquer lugar. Alegando que a cada gole, uma lembrança boa de Alice passa por seus olhos. É só assim que a saudade se torna mais suportável. Fica de porre, chega de manhã em casa, dorme o dia todo e acorda pra beber mais algumas doses. Isso até chegar segunda-feira. Que ele levanta cedo, toma um café bem forte e enfrenta o trânsito e a ressaca pra chegar no trabalho. Emagreceu alguns quilos, conservava olheiras profundas e barba por fazer. Esse era o Thiago decadente e bêbado, sem Alice. O que não falta são erros e justificativas quando se quer terminar um relacionamento. Ás vezes é preguiça de tentar de novo, preguiça de dar um pouco mais de si pra tentar resgatar o que nem sempre está tão perdido assim. Pois bem, sem mais filosofias, era uma sexta-feira e Thiago estava lá, disposto a ingerir qualquer bebida que contivesse álcool, só por um pouquinho de felicidade superficial, já que a verdadeira andava escondendo-se dele nos últimos meses. Levantou-se da mesa para ir até o balcão encher seu copo. E enquanto esperava, sentiu uma mão no seu ombro e logo em seguida ao seu lado estava um homem, meio velho e barbudo de olhos vermelhos e embriagados, que ele nunca havia visto na vida.

- É meu jovem, cedo ou tarde conhecemos a vodka. Temos uma vida inteira de decepções para servir de motivo. Aquele que morreu sem conhecê-la, digo com toda certeza que era a pessoa mais infeliz do mundo. – disse o velho e tomou um grande gole do copo que segurava e apoiou-se no balcão bem próximo de Thiago.

- Não acredito tanto nessa alegria que essa bebida nos proporciona. É falsa, momentânea e seguida de uma ressaca que nem o café mais forte do mundo cura. – respondeu e depois virou todo o conteúdo de seu copo, enxugou a boca com as costas da mão e fez uma careta quando o líquido desceu queimando por sua garganta.

- Imagino que esteja sofrendo por amor, está na sua cara e no seu colarinho amassado, coisa que nenhuma mulher deixaria acontecer. É uma pena que tenha que passar por isso justamente na flor da idade... – o homem agora o encarava decifrando-o como nenhum dos seus “amigos” na mesa conseguiam fazer.

- O destino ás vezes é cruel. – Thiago balbuciou, balançando a cabeça e encarando o nada.

- Mulheres é quem são, meu amigo. E estamos a mercê delas. Mas não se pode mascarar tudo com o álcool. Um dia você terá que enfrentar o ocorrido e seguir com sua vida. Ela deve estar fazendo isso neste exato momento, pra você estar aqui neste estado e não indo atrás dela. – Então era isso? O que ele precisava ouvir havia sido dito por um velho bêbado, num balcão imundo de um bar. E essa era a hora de decidir, agora era matar ou morrer. Ele sabia que não dava pra continuar assim, mas e tinha outra coisa a ser feita?

- Ninguém vai lhe resgatar, só você é capaz disso. O primeiro passo é querer se salvar. Sua vida, depende de você. – Thiago olhou para o lado, afim de encarar o homem e perguntar quem era ele afinal, dizendo todas aquelas coisas e estando exatamente na mesma situação em que ele também estava. Mas ele não estava mais lá. Encarou o seu próprio reflexo na porta de vidro que o separava do lado de fora, e só então entendeu. Levantou-se do banco, e foi andando para a rua. Teria que pegar um táxi de volta pra casa. Verificou os bolsos para saber se ainda havia algo ali. Carteira, chaves, celular. Ok. Respirou fundo, deixando que o ar frio da madrugada entrasse em seus pulmões. Perdemos chances, tempo e juventude todos os dias. Pessoas com uma menor freqüência, claro. Mas também as perdemos. Quando já não há mais nada a ser feito, o que nos resta é apenas... aceitar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

o fim.

- Eu... eu me apaixonei por outra pessoa. – ela disse assim, sem medir as palavras, sem pensar nas conseqüências, sem imaginar que estrago aquilo faria nos ouvidos e no coração dele. Ao fim da frase, de rabo de olho, viu os ombros de Thiago despencando e suas mãos antes escondidas debaixo de braços cruzados, correrem ao encontro de seu rosto, para escondê-lo. Não teve coragem o suficiente para olhá-lo, então pôs se a encarar os sapatos.
- Quem é? – sua voz era um murmúrio tão baixo, que se ela já não estivesse esperando por essa pergunta, não conseguiria entender o que ele dizia.
- Não acho que seja necessá...
- NÃO É NECESSÁRIO? – de repente seus olhos se estreitaram demonstrando a raiva que percorria seu corpo e sua voz ficou tão alta que ecoava pela sala quase vazia, não fosse pelas caixas de mudança e o sofá.
- Porque você precisa tanto saber?
- PORQUE É NORMAL QUERER SABER COM QUEM ESTOU SENDO TRAÍDO. – pôs se de pé num salto, chutando algumas caixas que estavam a sua frente.
- Mas, eu não traí você!
- QUEM É ELE?
- ...
- QUEM É ELE? – desta vez ele gritou mais alto, insistindo por uma resposta.
- Nós nunca nem nos beijamos, a gente só conversa e...
- E COMO SE APAIXONOU POR ELE, ENTÃO?
- E-eu...
- ACHA MESMO QUE PORQUE NUNCA SE BEIJARAM SUA CULPA SE TORNARÁ MENOR?
- Ficaria mais fácil conversar se você parasse de gritar, Thiago. – ela disse em meio a um suspiro de cansaço.
- NÃO ME DIGA O QUE FAZER! NÓS FINALMENTE ESTÁVAMOS BEM E VOCÊ ESTÁ DESTRUINDO ISSO. – ele levanta os braços com indignação e os leva a cabeça, num gesto de desespero.
- PELO MENOS TIVE A DECÊNCIA DE CONTAR A VERDADE, DE NÃO TERMINAR COM VOCÊ, DE NÃO TENTAR TE COLOCAR A CULPA! – Alice finalmente se permitiu falar o que queria, sem engolir seus sentimentos criando um nó cego em seu estômago, deixando as palavras transparecerem aquilo que realmente sentia. Não temia mais nada, não precisava mais preservar aquele sentimento, nem ser a única a se preocupar com a relação dos dois.
- Eu sei disso... – seus músculos agora relaxavam, voltou a sentar-se e cobrir as mãos com o rosto. – Até nessas horas você me dá motivos para acreditar que eu não sou bom o bastante pra você. – balbuciou, com a voz abafada.
Alice não tinha o que dizer. Sabia exatamente a dor que Thiago sentia, e não desejava isso para ele apesar das inúmeras vezes que ele lhe causou o mesmo. Começou a sentir uma coisa estranha, algo que nunca havia sentido por ele, o pior sentimento que se pode sentir por alguém nessas horas: pena. Segurou o impulso de afagar seus cabelos, ou de falar alguma coisa que lhe confortasse. Porém, todo o esforço foi em vão. Virou-se para Thiago e tirou as mãos que cobriam seu rosto devagar. Encarou-o no fundo dos olhos, que agora estavam vermelhos e haviam lágrimas escorregando por sua bochecha.
- Desculpe. – ficou um momento em silêncio, apenas olhando seus olhos, entrando o mais fundo que podia em sua alma. – Por toda a dor que estou lhe causando. – Dava pra sentir a sinceridade em suas palavras.
- Não me olhe desse jeito, não sinta pena de mim. – Ele afastou suas mãos devagar e enxugou o rosto com as costas da mão. “Já te fiz pior” ele pensou, mas não disse. Era covarde demais para isso. Alice levantou-se e pegou sua bolsa.
- Você já vai? – ele olhou para ela, com aqueles olhos que não pedem, suplicam.
- Sim.
- Mas tá faltando algo...
- O quê?
- Poxa, já é difícil eu olhar para você e perceber que você é dele. Só preciso que me diga. Eu não ficarei curado de você, mas ficarei aliviado. – as palavras saíram sofridas, porém parecia muito a voz de um garoto mimado pedindo desesperadamente a mãe para lhe fazer uma vontade.
Alice encara Thiago. “Como é que eu já fui capaz de amar você?” Ela se aproxima e o beija. Um beijo sem gosto, sem amor nenhum. Ele tenta resgatar algum pouco de sentimento que ainda reste, puxando-a para mais perto, envolvendo-a em seus braços. Mas ela termina o beijo, encosta a testa na dele, segurando sua nuca e deixa a última lágrima escorrer.
- Você me amou... – ele diz. E ela apenas vira as costas e sai, fechando a porta e deixando trancado ali dentro todo o seu passado. Parou um momento no hall, respirou fundo. Sentia que estava pronta para descer as escadas...e recomeçar.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Quem sabe o príncipe virou um chato.

- Um desejo louco alucinado. – depois da confissão, Alice ouviu risinhos do outro lado da linha.
- É isso que você sente por ele? Achei que seria amor... ou paixão. – continuou Isa a debochar.
- Digamos que seja o início de uma paixão.
- E vocês ao menos já se beijaram?
- Não. Por isso ainda é um desejo louco e alucinado.
- E o Thiago?
- O que tem? – perguntou ela com a voz calma, e para sua surpresa, o coração igualmente calmo.
- O que sente por ele? – Isa sabia que esse era o clímax. A pergunta secreta, o que todos queriam saber e tinham medo de falar, para não magoar Alice, talvez. Isa pressionou o telefone no ouvido, ansiosa pela resposta.
- Afeto e gratidão. – palavras firmes, saíram sem muito pensar, apenas a verdade saindo de seus lábios. A voz abafada de repente calou-se, Alice podia imaginar a amiga perplexa, não se deixando acreditar no que ouvira.
- Mas... como assim? – ela insistiu.
- É natural que as pessoas se encontrem e se percam
. – coisas que ela nunca havia pensado, pareciam tão certas agora, tão cheias de clareza.
- Será que é pela distância? – Isa permanecia incrédula. Como um amor tão terno e recíproco acabava-se assim, feito chuva de verão?
- Pode ser que seja. Sei lá. Não penso muito nisso. – Alice agora olhava as margaridas do jardim pela janela da sala, enrolando o fio de telefone com os dedos. Tentava lembrar-se de algum momento com Thiago, e lembrava sim, de vários. Porém nada que lhe fizesse molhar os olhos de saudade. Apenas boas recordações.
- Vocês não se falam a quanto tempo?
- Desde sua partida. Não chorei desde que ele se foi. Era como se levasse todos meus sentimentos com ele. Ou talvez a mágoa não me permitisse sentir falta. Só sei que meu coração permanece no mesmo ritmo se alguém fala seu nome, como aconteceu agora.
- Nossa, já faz bastante tempo. Realmente não sente nem um pouquinho de falta? – Isa queria uma confissão, mas parece que a amiga estava realmente curada das feridas passadas.
- Digamos que já me acostumei com sua ausência.
- Tanto que tem até um alguém a vista, não é? – Isa disse e riu, tentando deixar a conversa mais divertida. Alice também riu, lembrando-se logo em seguida do sorriso do seu atual platônico. E a lembrança já foi suficiente para aquecer seu coração, fazendo com que uma felicidade instantânea percorresse seu corpo.
Ainda conversaram mais alguns minutos. Desta vez as risadas ecoavam nas paredes da sala. Eram amigas há tanto tempo, Alice adorava o jeito despreocupado de Isa, que sempre fazia as coisas parecerem tão fáceis. Ao desligar o telefone, sentou-se no sofá e deixou escapar um suspiro... um misto de saudade(do sorriso do platônico), ansiedade e aquele gosto doce de paixão recente.


-
"Você olha para ele e não sabe onde foi parar aquilo tudo que deveria estar eternamente ali. Onde vai parar o sempre quando o sempre acaba? Claro, 'que seja eterno enquanto dure', e então não é eterno, pois a eternidade é infinita e finito é o amor, não é isso?" (Fernanda Young, "O Efeito Urano")

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Alice (is not) in wonderland.

O eterno gosto amargo das coisas que não tiveram o seu devido fim.

- Feliz Aniversário! – ele esboçou um sorriso e estendeu a mão para cumprimentá-la. Alice olhou para a mão de Thiago. A mão que antes afagava seus cabelos e nunca cansava de lhe acariciar agora tocou a sua friamente.
- Obrigada. – ela não se deu ao trabalho de sorrir. Já estava cansada demais de fingimentos. Estava esgotada, derrotada. A situação não lhe agradava, lhe doía, e era isso que iria demonstrar.
- Que coincidência...
- Não acho que seja. – as palavras pareciam cobertas de gelo.
- Porque não? – ele fez cara de menino quando é contrariado. Alice sentiu uma vontade enorme de abraçá-lo.
- Você sabe que aquele é meu restaurante preferido. Você sabe que hoje é meu aniversário.
- Acha que fui de propósito?
- Seu divertimento é me magoar, me ferir. Você não perderia a oportunidade de mostrar sua nova namorada, de beijá-la em minha frente.
- ...
- Porque o silêncio? Você sempre tem algo a dizer. Então diga! Termine logo com isso, acabe comigo de vez. É muita crueldade ir me matando aos poucos.
- Eu te amo.
- NÃO AMA! Não me abandonaria se me amasse. Não estaria com ela se me amasse.
- Ela só tem meu corpo, você tem meu coração e minha alma.
- Então, porque ainda está com ela?
- Porque eu sou egoísta.
- Não aguento mais essa sua cara de quem não sofre, sentindo pena de mim. Eu não preciso disso. Eu não preciso de você. – e vira as costas numa pressa repentina, sem a menor vontade de ir embora, voltando a fingir.
- Desculpe. – sua voz saiu fraca, quase um sussurro. Alice parou, mas não se virou para encará-lo, sentia o nó na garganta e temia que ao encarar aqueles olhos, os seus não aguentassem.
- Não lamente, a escolha foi sua. - Apertou o botão do elevador, e torceu para que este fosse mais rápido que o arrependimento de não tê-lo perdoado. Entrou, e respirou fundo, precisava esperar só um pouco para desabar.
Quando o elevador abriu no terceiro andar, ele estava encostado ao lado de sua porta, com as mãos nos bolsos e aquele olhar que Alice não aguentava. Thiago sempre foi mais rápido nas escadas. Lembrou que eles faziam aquelas brincadeiras, e ela achava incrível ele chegar mais rápido do que o elevador. Livrou-se dos pensamentos e fingiu que ele não estava lá, andou até sua porta e revirou a bolsa atrás das chaves, com mãos trêmulas.
- Posso ao menos te ajudar?
- Vai embora Thiago, já não basta a conversa no hall, já não basta... tudo. Eu só quero ficar sozinha.
- Alice, olha pra mim.
- Eu não posso. – e ele a segurou, fazendo com que eles ficassem cara-a-cara, pele-a-pele, coração-a-coração.
- Eu não amo aquela garota. Eu amo você.
- Esse é o grande problema. Suas palavras não batem com suas atitudes.
E ele a beijou. Um beijo terno e sufocado, cheio de saudade. Ela relutou, mas segundos depois estava entregue em seus braços e deixou que a bolsa escorregasse ao chão, para que pudesse abraçá-lo firmemente.



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Hoje faz um ano que o borboletas existe! :) E já que é pra apagar as velinhas e fazer um pedido de olhos fechados, eu só desejo continuar com esse cantinho por um longo tempo, desejo que as idéias para boas histórias sejam diárias e desejo também que o blog cresça, ganhe o mundo. Sonhar nunca é demais! O meu muito obrigado aquelas pessoas que me deram palavras de incentivo para continuar a escrever, saibam que foi sim muito importante. Então, é isso.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

abrindo as janelas, tirando a poeira dos cantos.

Saindo um pouco da rotina(que não é diária) das postagens do borboletas, resolvi responder o desafio do MEME que o Fael ,do blog Tablito, me mandou. De início foi bem difícil, confesso. Porque fui reduzindo minha lista de vozes preferidas até ficarem só 13. Julgava esta tarefa impossível, mas aí está.

warning sign, Chris Martin (coldplay)
último romance, Marcelo Camelo (los hermanos)
relicário, Cássia eller e Nando Reis
daniel na cova dos leões, Renato Russo (legião urbana)
preciso dizer que te amo, Cazuza e Bebel Gilberto
cada segundo, Sandro (aditive)
use somebody, Hayley Williams (cover kings of leon)
talk shows on mute, Brandon Boyd (incubus)
eu te amo, Ana Carolina (música de chico buarque)
janta, Mallu Magalhães e Marcelo Camelo
beat your heart out, Brody Dalle (the distillers)
ventos de outubro, Lorena Chaves
a beutiful mess, Jason Mraz

Desculpem a falta de inspiração, ou seja, a falta de atualizações no blog. Venho quebrando minha cabeça nas últimas semanas tentando finalizar um texto, mas não acho que está ficando bom. E eu só posto aqui o que acho realmente bom. Não gosto de escrever qualquer coisa e deixar aqui só pra atualizar. Tem que ser algo que valha a pena de ler. Então, é isso. :)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

i love you until the end.

Seus corações batiam ritmicamente, juntos, iguais, e no momento que um deles parou, o outro desejou imediatamente não funcionar mais...



- Eu quero de flocos, tá?

- Tá! Não fecha o portão, me espera aqui, não vou demorar. – pediu Thiago enquanto entrava no carro, ainda na garagem. Debrucei-me sob a janela e pressionei meus lábios sob os seus.

- Vou morrer de saudades... – choraminguei passando os dedos em seu cabelo.

- Já volto princesa, e trago sorvete! – ele sorriu e me beijou na testa. Thiago sempre me beijava na testa quando nos separávamos. Nunca perguntei porque. Seus olhos penetraram os meus por alguns segundos, e ele moveu os lábios num “eu te amo” mudo.

- Eu te amo mais, muito mais.

Ele finalmente ligou o carro, que deu um ronco cansado. Eu sempre interpretava aquele barulho como um pedido de socorro, mas ele ignorava. Tinha um amor incondicional por aquele carro, que foi o seu primeiro, e não lhe importava que a pintura estivesse descascando ou o assento do banco de trás remendado.

Fiquei observando o carro dobrar a esquina e me sentei na calçada, perdida em meus pensamentos. No quarto, a cama estava desarrumada, os lençóis revirados e na TV, o mocinho do filme permanecia paralisado, esperando que Thiago atendesse meu desejo de comer sorvete com biscoito. O supermercado era a algumas quadras dali, ele preferiu ir de carro para ser mais rápido, afinal, o domingo já estava acabando e na segunda retomaríamos nossa rotina, o tempo para nós dois diminuiria consideravelmente. Uma brisa soprou, arrastando algumas folhas secas na calçada e bagunçando meu cabelo. “Devo estar horrível” pensei.

Usava um vestido xadrez, o meu preferido, confortável o suficiente para passar a tarde em casa vendo DVDs. Meu cabelo estava solto, os cachos se formavam em meus ombros e desciam por minhas costas. Passei os dedos para desembaraçá-lo e sorri, relembrando algumas horas atrás, quando saí do banho e já vestida, me olhei no espelho, fazendo uma careta, sem gostar do que via. Thiago pousou as mãos em minha cintura e sussurrou em meu ouvido que eu estava linda. Virei-me para abraçá-lo e limpei sua bochecha suja de farelo de pão, vestígios do nosso café-da-manhã. Um carro me fez despertar desses devaneios. Parecia um borrão preto, não deu pra ver muita coisa, estava rápido demais. Pouco tempo depois, ouvi uma buzina conhecida e depois um estrondo. Pneus cantaram no asfalto, vidros se estilhaçaram e meu coração deu um solavanco. Senti as borboletas em meu estômago voarem apressadas, procurando a saída mais próxima. O medo percorria todo meu corpo e pus-me de pé num salto, os olhos arregalados de pavor, procuravam alguma resposta, olhando atentos na direção do barulho. Meus pensamentos eram suplicantes. “Por favor que aquele carro não tenha batido em Thiago, por favor!” Então eu corri. O mais rápido que pude e ao dobrar a esquina, vi a cena. O carro preto estava atravessado na rua, quase intacto, não fosse por um arranhão na lateral. O motorista estava saindo do carro, meio atordoado. Mais a frente, um carro vermelho com a pintura descascando, estava em pedaços, abraçado ao poste. Fumaça saía do capô e o pára-brisa tinha uma rachadura enorme, que a qualquer momento podia se despedaçar. Aproximei-me do carro, lágrimas embaçavam minha visão, mas o pouco que vi foi suficiente. Thiago com a cabeça pendendo para frente, desacordado. No banco do passageiro a sacola de supermercado. Tapei a boca com as mãos abafando o grito. Pisquei, para que as lágrimas rolassem e eu pudesse ver melhor. Queria chegar mais perto, chamar até que ele acordasse, mas estava presa ali, com os pés fixos ao chão.

- Eu vou ligar para a ambulância. Mantenha a calma, ele deve estar bem. – alguém balbuciou atrás de mim, provavelmente o motorista do outro carro. Não respondi e nem me importei em virar para olhá-lo. Dei alguns passos a frente, vencendo o medo que me prendia ali e ergui a mão. Toquei em Thiago com os dedos trêmulos e imediatamente eles estavam sujos de sangue. Sua testa tinha um corte profundo e a boca estava entreaberta. Minhas pernas não agüentaram, cederam, e caí de joelhos na rua. A dor da queda não conseguiu ser maior que o medo de perdê-lo. Gritei o mais alto que minhas cordas vocais me permitiam, tentando expulsar o nó que se formava em minha garganta... mas nem o grito foi capaz de desatá-lo. Ouvi ao longe o barulho da sirene e permaneci ali, em choque. Alguém me puxava para trás e eu estava me distanciando dele, joguei-me para frente tentando alcançá-lo, mas os braços que me seguravam eram fortes, e a cada piscar de olhos, Thiago ficava mais longe. Uns homens altos chegavam com uma maca perto do carro. Uma sensação desconhecida percorreu meu corpo, como se o ar não entrasse mais em meus pulmões. De repente, silêncio, escuridão e...


o barulho irritante do despertador.


Alice abriu os olhos molhados, estava tão suada que algumas mechas de cabelo grudavam em seu pescoço e ela ergueu-se na cama, apoiando o corpo com os cotovelos. Uma claridade estranha inundava o quarto, fazendo-a piscar várias vezes para acostumar-se com a luz. Olhou para o lado e o travesseiro que devia estar ocupado, estava vazio. De repente entrou em pânico, temendo que o pesadelo fosse real.

- Thiago? – gritou, sentindo que novas lágrimas já escorriam por seu rosto.

- Amor, porque o despertador ainda está ligado? – perguntou ele, saindo do banheiro, com a escova de dente na mão, enrolado numa toalha, o cabelo ainda pingando nos ombros. – O que houve, porque está chorando? – Thiago deu a volta na cama, desligou o despertador, e abraçou Alice, colocando a cabeça dela em seu peito. Ela aninhou-se ali, deixando o medo ir embora. Não queria lhe soltar mais, podia abraçá-lo assim para sempre.

- Eu tive um pesadelo horrível e pareceu tão real. – lhe explicou entre soluços.

- Por isso estava tão suada, e se mexendo tanto durante a noite. Abri as janelas, achando que estava inquieta por causa do calor. Desculpe, devia ter te acordado, mas é que você já dormiu tão mal na outra noite... – uma ruga de preocupação agora se formava em sua testa. Tudo que era ruim para Alice, automaticamente era ruim para ele também.

- Não se desculpe apenas me abrace. – ela pediu, apertando seus braços com mais força em volta do pescoço dele.

- Posso fazer isso durante toda a minha vida, se você precisar.

- Prometa que vai estar aqui todas as manhãs. - Alice se desprendeu de seu abraço para olhá-lo. Acreditava que promessas só eram promessas, se fossem feitas olhando nos olhos.

- Eu não preciso prometer. É simplesmente impossível que algum dia eu venha a sair do seu lado.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

soneto da fidelidade.

19 de outubro de 2009, manhã de reencontro, poemas e pensamentos.

Uma rua. Como outra qualquer. Casas, árvores e uma senhora sentada em sua calçada, fazendo bordados. Não era uma rua muito movimentada. Alice nem sequer sabe o motivo pelo qual entrou naquela rua e não foi pela avenida, como faz todas as manhãs para ir á faculdade. Estava lendo um livro que um amigo lhe emprestou, de poemas. Seu cabelo estava solto, uma tiara afastava-os do rosto, e os cachos que se formavam nas pontas, caiam sobre seus ombros. Vinha andando tão distraída com seus poemas, que nem percebeu quem estava passando ao seu lado. Só quando sentiu aquele perfume, um cheiro que sempre lhe lembrou madeira e torta de maçã, foi que parou de repente e ergueu os olhos. Era Thiago. Quanto tempo fazia que não o via? Fechou o livro, deixando o fim do poema para depois ². Virou-se e viu que Thiago também havia parado na calçada, com um livro em uma das mãos. Ele usava aquela camisa verde que ela lhe dera no natal do ano passado e o jeans preferido. Estava usando óculos agora, e tinha aquela barba por fazer que Alice tanto repugnava.
- Oi. – ele murmurou, dando um sorriso amarelo, tão sem graça quanto ela, pelo reencontro.
- Oi. – ela respondeu, também se sentindo desconfortável.
- O que faz por aqui? – ele sabia muito bem que seu apartamento era duas ruas dali, mas queria olhar para ela por mais um tempo, e quis puxar assunto.
- Estou indo pra faculdade, nem sei porque mudei de caminho hoje... – ela queria terminar a frase e dizer “...acho que já sabia que iria te encontrar”.
- Ah!
- E você?
- Estou indo na casa do meu Tio, que é...
- Na outra rua! – Alice interrompeu, lembrando que toda vez que passava pela rua da padaria, avistava o duplex na esquina.
- Isso! - ele sorriu, desta vez um sorriso menos amarelo. Isso fez com que o coração de Alice batesse forte, tão forte que ela receou que ele o ouvisse. Retribuiu seu sorriso, e percebeu que as mãos de Thiago suavam, entregando seu nervosismo.
- Como está sua mãe? – agora ela que puxava assunto, gostando de perceber que seu sorriso o deixou nervoso.
- Vai bem, sempre pergunta por você. – ele tinha vontade de abraçá-la e precisou concentrar-se para não agir por impulso. Ser impulsivo era seu grande defeito.
- Hum. Preciso ir agora, ou vou me atrasar. – disse ela quebrando o silêncio, depois de alguns minutos de olhares e sorrisinhos-canto-de-boca.
- Ah, claro. Tchau.
Seguiram em direções opostas. Isso já era bem comum entre eles... “seguir em direções opostas”. Alice ainda demorou um pouco para retomar seu poema. Precisava recuperar o fôlego. E Thiago também não recomeçou seu livro de imediato, tinha umas coisas para pensar ¹.

¹ umas coisas para pensar:

Parecíamos dois estranhos. Como se nunca tivéssemos tido toda aquela intimidade que tivemos. Ela estava linda, seu sorriso continua me fascinando, tanto que até fiquei nervoso, tentando controlar minha vontade de abraçá-la e falar que sinto saudades. Nunca vou me perdoar por tê-la perdido. Ainda amo você, Alice.


² o fim do poema para depois:

“Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”
Soneto da Fidelidade - Vinícius de Morais