terça-feira, 13 de outubro de 2009

i love you until the end.

Seus corações batiam ritmicamente, juntos, iguais, e no momento que um deles parou, o outro desejou imediatamente não funcionar mais...



- Eu quero de flocos, tá?

- Tá! Não fecha o portão, me espera aqui, não vou demorar. – pediu Thiago enquanto entrava no carro, ainda na garagem. Debrucei-me sob a janela e pressionei meus lábios sob os seus.

- Vou morrer de saudades... – choraminguei passando os dedos em seu cabelo.

- Já volto princesa, e trago sorvete! – ele sorriu e me beijou na testa. Thiago sempre me beijava na testa quando nos separávamos. Nunca perguntei porque. Seus olhos penetraram os meus por alguns segundos, e ele moveu os lábios num “eu te amo” mudo.

- Eu te amo mais, muito mais.

Ele finalmente ligou o carro, que deu um ronco cansado. Eu sempre interpretava aquele barulho como um pedido de socorro, mas ele ignorava. Tinha um amor incondicional por aquele carro, que foi o seu primeiro, e não lhe importava que a pintura estivesse descascando ou o assento do banco de trás remendado.

Fiquei observando o carro dobrar a esquina e me sentei na calçada, perdida em meus pensamentos. No quarto, a cama estava desarrumada, os lençóis revirados e na TV, o mocinho do filme permanecia paralisado, esperando que Thiago atendesse meu desejo de comer sorvete com biscoito. O supermercado era a algumas quadras dali, ele preferiu ir de carro para ser mais rápido, afinal, o domingo já estava acabando e na segunda retomaríamos nossa rotina, o tempo para nós dois diminuiria consideravelmente. Uma brisa soprou, arrastando algumas folhas secas na calçada e bagunçando meu cabelo. “Devo estar horrível” pensei.

Usava um vestido xadrez, o meu preferido, confortável o suficiente para passar a tarde em casa vendo DVDs. Meu cabelo estava solto, os cachos se formavam em meus ombros e desciam por minhas costas. Passei os dedos para desembaraçá-lo e sorri, relembrando algumas horas atrás, quando saí do banho e já vestida, me olhei no espelho, fazendo uma careta, sem gostar do que via. Thiago pousou as mãos em minha cintura e sussurrou em meu ouvido que eu estava linda. Virei-me para abraçá-lo e limpei sua bochecha suja de farelo de pão, vestígios do nosso café-da-manhã. Um carro me fez despertar desses devaneios. Parecia um borrão preto, não deu pra ver muita coisa, estava rápido demais. Pouco tempo depois, ouvi uma buzina conhecida e depois um estrondo. Pneus cantaram no asfalto, vidros se estilhaçaram e meu coração deu um solavanco. Senti as borboletas em meu estômago voarem apressadas, procurando a saída mais próxima. O medo percorria todo meu corpo e pus-me de pé num salto, os olhos arregalados de pavor, procuravam alguma resposta, olhando atentos na direção do barulho. Meus pensamentos eram suplicantes. “Por favor que aquele carro não tenha batido em Thiago, por favor!” Então eu corri. O mais rápido que pude e ao dobrar a esquina, vi a cena. O carro preto estava atravessado na rua, quase intacto, não fosse por um arranhão na lateral. O motorista estava saindo do carro, meio atordoado. Mais a frente, um carro vermelho com a pintura descascando, estava em pedaços, abraçado ao poste. Fumaça saía do capô e o pára-brisa tinha uma rachadura enorme, que a qualquer momento podia se despedaçar. Aproximei-me do carro, lágrimas embaçavam minha visão, mas o pouco que vi foi suficiente. Thiago com a cabeça pendendo para frente, desacordado. No banco do passageiro a sacola de supermercado. Tapei a boca com as mãos abafando o grito. Pisquei, para que as lágrimas rolassem e eu pudesse ver melhor. Queria chegar mais perto, chamar até que ele acordasse, mas estava presa ali, com os pés fixos ao chão.

- Eu vou ligar para a ambulância. Mantenha a calma, ele deve estar bem. – alguém balbuciou atrás de mim, provavelmente o motorista do outro carro. Não respondi e nem me importei em virar para olhá-lo. Dei alguns passos a frente, vencendo o medo que me prendia ali e ergui a mão. Toquei em Thiago com os dedos trêmulos e imediatamente eles estavam sujos de sangue. Sua testa tinha um corte profundo e a boca estava entreaberta. Minhas pernas não agüentaram, cederam, e caí de joelhos na rua. A dor da queda não conseguiu ser maior que o medo de perdê-lo. Gritei o mais alto que minhas cordas vocais me permitiam, tentando expulsar o nó que se formava em minha garganta... mas nem o grito foi capaz de desatá-lo. Ouvi ao longe o barulho da sirene e permaneci ali, em choque. Alguém me puxava para trás e eu estava me distanciando dele, joguei-me para frente tentando alcançá-lo, mas os braços que me seguravam eram fortes, e a cada piscar de olhos, Thiago ficava mais longe. Uns homens altos chegavam com uma maca perto do carro. Uma sensação desconhecida percorreu meu corpo, como se o ar não entrasse mais em meus pulmões. De repente, silêncio, escuridão e...


o barulho irritante do despertador.


Alice abriu os olhos molhados, estava tão suada que algumas mechas de cabelo grudavam em seu pescoço e ela ergueu-se na cama, apoiando o corpo com os cotovelos. Uma claridade estranha inundava o quarto, fazendo-a piscar várias vezes para acostumar-se com a luz. Olhou para o lado e o travesseiro que devia estar ocupado, estava vazio. De repente entrou em pânico, temendo que o pesadelo fosse real.

- Thiago? – gritou, sentindo que novas lágrimas já escorriam por seu rosto.

- Amor, porque o despertador ainda está ligado? – perguntou ele, saindo do banheiro, com a escova de dente na mão, enrolado numa toalha, o cabelo ainda pingando nos ombros. – O que houve, porque está chorando? – Thiago deu a volta na cama, desligou o despertador, e abraçou Alice, colocando a cabeça dela em seu peito. Ela aninhou-se ali, deixando o medo ir embora. Não queria lhe soltar mais, podia abraçá-lo assim para sempre.

- Eu tive um pesadelo horrível e pareceu tão real. – lhe explicou entre soluços.

- Por isso estava tão suada, e se mexendo tanto durante a noite. Abri as janelas, achando que estava inquieta por causa do calor. Desculpe, devia ter te acordado, mas é que você já dormiu tão mal na outra noite... – uma ruga de preocupação agora se formava em sua testa. Tudo que era ruim para Alice, automaticamente era ruim para ele também.

- Não se desculpe apenas me abrace. – ela pediu, apertando seus braços com mais força em volta do pescoço dele.

- Posso fazer isso durante toda a minha vida, se você precisar.

- Prometa que vai estar aqui todas as manhãs. - Alice se desprendeu de seu abraço para olhá-lo. Acreditava que promessas só eram promessas, se fossem feitas olhando nos olhos.

- Eu não preciso prometer. É simplesmente impossível que algum dia eu venha a sair do seu lado.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

soneto da fidelidade.

19 de outubro de 2009, manhã de reencontro, poemas e pensamentos.

Uma rua. Como outra qualquer. Casas, árvores e uma senhora sentada em sua calçada, fazendo bordados. Não era uma rua muito movimentada. Alice nem sequer sabe o motivo pelo qual entrou naquela rua e não foi pela avenida, como faz todas as manhãs para ir á faculdade. Estava lendo um livro que um amigo lhe emprestou, de poemas. Seu cabelo estava solto, uma tiara afastava-os do rosto, e os cachos que se formavam nas pontas, caiam sobre seus ombros. Vinha andando tão distraída com seus poemas, que nem percebeu quem estava passando ao seu lado. Só quando sentiu aquele perfume, um cheiro que sempre lhe lembrou madeira e torta de maçã, foi que parou de repente e ergueu os olhos. Era Thiago. Quanto tempo fazia que não o via? Fechou o livro, deixando o fim do poema para depois ². Virou-se e viu que Thiago também havia parado na calçada, com um livro em uma das mãos. Ele usava aquela camisa verde que ela lhe dera no natal do ano passado e o jeans preferido. Estava usando óculos agora, e tinha aquela barba por fazer que Alice tanto repugnava.
- Oi. – ele murmurou, dando um sorriso amarelo, tão sem graça quanto ela, pelo reencontro.
- Oi. – ela respondeu, também se sentindo desconfortável.
- O que faz por aqui? – ele sabia muito bem que seu apartamento era duas ruas dali, mas queria olhar para ela por mais um tempo, e quis puxar assunto.
- Estou indo pra faculdade, nem sei porque mudei de caminho hoje... – ela queria terminar a frase e dizer “...acho que já sabia que iria te encontrar”.
- Ah!
- E você?
- Estou indo na casa do meu Tio, que é...
- Na outra rua! – Alice interrompeu, lembrando que toda vez que passava pela rua da padaria, avistava o duplex na esquina.
- Isso! - ele sorriu, desta vez um sorriso menos amarelo. Isso fez com que o coração de Alice batesse forte, tão forte que ela receou que ele o ouvisse. Retribuiu seu sorriso, e percebeu que as mãos de Thiago suavam, entregando seu nervosismo.
- Como está sua mãe? – agora ela que puxava assunto, gostando de perceber que seu sorriso o deixou nervoso.
- Vai bem, sempre pergunta por você. – ele tinha vontade de abraçá-la e precisou concentrar-se para não agir por impulso. Ser impulsivo era seu grande defeito.
- Hum. Preciso ir agora, ou vou me atrasar. – disse ela quebrando o silêncio, depois de alguns minutos de olhares e sorrisinhos-canto-de-boca.
- Ah, claro. Tchau.
Seguiram em direções opostas. Isso já era bem comum entre eles... “seguir em direções opostas”. Alice ainda demorou um pouco para retomar seu poema. Precisava recuperar o fôlego. E Thiago também não recomeçou seu livro de imediato, tinha umas coisas para pensar ¹.

¹ umas coisas para pensar:

Parecíamos dois estranhos. Como se nunca tivéssemos tido toda aquela intimidade que tivemos. Ela estava linda, seu sorriso continua me fascinando, tanto que até fiquei nervoso, tentando controlar minha vontade de abraçá-la e falar que sinto saudades. Nunca vou me perdoar por tê-la perdido. Ainda amo você, Alice.


² o fim do poema para depois:

“Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”
Soneto da Fidelidade - Vinícius de Morais


Por Narradora.

terça-feira, 16 de junho de 2009

primeiro beijo, último romance.

21 de abril de 2004, numa terça á tarde, na casa de Thiago.


- Escuta essa música. – Ele colocou um fone no meu ouvido e outro no dele, sentando-se mais perto de mim. Estávamos no jardim de sua casa, sentados no banquinho de pedra embaixo de uma árvore grande, que fazia uma sombra deliciosa. Os primeiros acordes da música começaram e ele pegou minha mão, beijou-a e entrelaçou seus dedos nos meus. Tentei não ficar nervosa para que minha mão não suasse. Encostei a cabeça em seu ombro, e a brisa veio com mais força, balançando os galhos da árvore acima de nós. Concentrei-me na música. Era linda. Ele se mexeu devagar, e eu levantei a cabeça de seu ombro, ele deitou em meu colo e eu passei os dedos pelo seu cabelo, assanhando-o. Thiago riu e fechou os olhos, seus lábios se moveram, sem emitir som algum, cantando em silêncio. “E ninguém dirá que é tarde demais, que é tão diferente assim, do nosso amor a gente é quem sabe, pequena...” Passamos mais algum tempo assim, até que a música enfim acabasse. “E se o tempo for te levar eu sigo essa hora, pego carona, pra te acompanhar.”

- O que achou? – ele perguntou, cheio de ansiedade.

- É linda, muito linda. – sorri, meio sem graça e lhe entreguei o fone de ouvido.

- Ela me lembra você. – ele se levantou e sentou-se ao meu lado. Tirou uma mecha de cabelo que cobria meus olhos, já que o vento insistia em me deixar despenteada. Olhou-me nos olhos, e desta vez eu não desviei, ele se aproximou e quando já estava tão perto que eu podia sentir seu hálito quente em meu rosto, ele sussurrou um “eu te amo Alice” quase inaudível e me beijou. Seus lábios eram macios e calmos, e se movimentavam de um jeito tão doce. Depois ele me abraçou e afagou meus cabelos.

- Eu também – foi o que consegui balbuciar.

- Sabe, desde aquele dia que te vi na escola, de algum modo eu sabia que você iria ser especial para mim.

- Eu sonhava com você todas as noites.

- É sério?

Eu balancei positivamente a cabeça. Ele me beijou novamente, desta vez um beijo mais demorado, suas mãos estavam em minha nuca e seus dedos entrelaçavam meu cabelo. Meu celular nos interrompeu.

- Alô? Ah, oi pai. Sim, já estou indo para casa. – Não podia ser numa hora mais inapropriada.

- Eu vou te deixar em casa. – ele se levantou e me puxou pela cintura, me envolvendo em seus braços.

- Não queria ir agora – choraminguei em seu ombro.

- Eu não queria que você fosse nunca.

- Mas eu vou sempre estar por perto. – levantei o rosto e sorri para ele. Depois me soltei de seus braços para pegar minha mochila, e ele me puxou de volta, me abraçando novamente.

- Isso é o que me conforta. Saber que você estará sempre por perto. – sua boca foi de encontro a minha, e ele teve de ficar meio curvo para isso. Era muito alto.

- Tenho mesmo que ir.

Ele colocou minha mochila em suas costas, segurou minha mão e me levou para casa. E eu nunca me senti tão segura, tão completa, tão amada.


Do diário de Alice.


-

Inspirado em um momento da minha vida que queria escrever para nunca esquecer. Apesar de achar impossível esquecer isso. Algumas coisas não são tão reais, já que resolvi adaptar para Thiago e Alice. Por exemplo, neste dia eu não tinha uma mochila, e meu pai não me ligou me mandando ir para casa. E a parte que eu gostaria que fosse verdade, e que ele sabe... é a de estarmos sempre perto.

sábado, 23 de maio de 2009

com pressa para esperar.

14 de junho de 2011, fim de tarde, pôr-do-sol dourado e até que a morte os separe.


- Thiago! – gritou Túlio pela 5º vez em menos de 10 minutos. A impaciência o dominava, fazendo-o jogar as chaves do carro de uma mão a outra. Thiago colocou a cabeça para fora da janela do apartamento e gritou um desaforo pro irmão. “Mas que diabos, ele não pode esperar alguns minutos?” pensou ele. Tinha que encontrar a caixinha de veludo, que deixara ali encima em algum lugar. Parou de revirar tudo, para tentar se lembrar onde a tinha deixado. Contemplou sua sala de estar, apesar da bagunça, percebia-se que era ampla e espaçosa. Decorada cuidadosamente por ela. Pôs se a relembrar alguns instantes de sua vida. De como seus sonhos haviam mudado nos últimos anos. A pensar sobre como as realizações são sempre diferentes dos planos que se fazem quando se tem sonhadores 18 anos e uma vida inteira pela frente.

Despertou dos seus pensamentos com batidas na porta, Túlio era mesmo impaciente. Nem esperou que Thiago abrisse a porta e já foi entrando, tropeçando em umas caixas na entrada.

- Ei cara, você tem que arrumar essa bagunça! Ai, que droga! – Ele falou rápido, sentando-se no sofá e massageando o tornozelo que colidiu com uma das caixas, o que fez com que ela virasse e todo o seu conteúdo se espalhasse pelo chão da sala.

- E nós realmente precisamos ir. Você não pode chegar atrasado, fiquei responsável por você, simplesmente me matariam se você chegasse depois da hora combinada. – Continuou ele, ainda fazendo caretas por conta da dor no tornozelo. No meio de alguns livros e CDs que caíram da caixa, Thiago viu a pequena caixinha de veludo vermelho que procurava.

- Achei! – gritou ele eufórico. - Agora podemos ir.

- Esse smoking realmente ficou bem em você. O meu está apertado na gola, isso incomoda muito. Eu pedi a Nanda para fazer alguma coisa, ela mandou que eu parasse de comer doces durante a noite. Essas mulheres, cada vez mais complicadas. – Túlio atravessou a bagunça da sala até a porta.

- Mas não é ela quem faz os doces?

- Por isso digo que são complicadas, faz os doces e deixa na geladeira, e reclama quando eu os como. O que posso fazer? São deliciosos!

Thiago riu do irmão e abriu a porta do apartamento. Pensou que quando entrasse de novo por aquela porta, seria com sua esposa nos braços. Túlio sempre lhe despertava desses devaneios, foi assim o caminho inteiro até a porta da igreja.

- Thiago, acorda! Já chegamos! – ele cutucou o braço do noivo distraído.

Era infinitamente junho. E ele devia esperar por alguém. Já sabia que rosto desejava encontrar.


Por Narradora.

quarta-feira, 25 de março de 2009

inevitável encontro.

12 de fevereiro de 2004, uma sexta-feira em que nada é por acaso.

- Alice, querida, hoje vou chegar mais tarde, mas tem um resto de macarrão na geladeira, você pode esquentar quando chegar.
- Tudo bem, pai, eu me viro aqui.
Eu tenho pais separados. Minha mãe, é uma aventureira, que sempre que aparece pro meu aniversário está com um namorado diferente, uma tatuagem em algum lugar do seu corpo onde elas ainda não existiam, uma nova cor no cabelo, e mais histórias de viagens para contar. Sorte a dela, que resolveu viver diferente de todo mundo, pelo menos é feliz! Não culpo Mamãe por ser ausente, gosto de morar com Papai, é como se eu morasse sozinha, tenho minha privacidade. Acredito que com minha mãe não seria assim, festas toda semana, muita gente em casa, e o jeito invasivo dela, de entrar no quarto sem bater. É, realmente é melhor com o papai, a cada visita de Mamãe, me convenço de que essa realmente é a decisão certa. Foi pensando nessas coisas que eu saí para o colégio. Não espero absolutamente nada de hoje, um dia normal, como todos os outros... Nem sequer sonhei com Thiago, na verdade, acho que é melhor tirar ele da cabeça, ele nem ao menos sabe o meu nome. Enquanto eu já sei muita coisa sobre sua vida, graças ao George que (é fofoqueiro) estuda na sala dele. Perdida nos meus pensamentos acabei esbarrando com Isa, que fechava a porta de casa. Ela mora no meu caminho pra escola, sempre vamos juntas. É assim há muito tempo e foi assim que nós nos conhecemos. Bastou alguns passos pra Isa lembrar que esqueceu o caderno, e tivemos que voltar. O que nos atrasou uns 10 minutos.

10h45min, aula de física, Alice canta baixinho e rabisca no caderno.

Bom, eu acredito que nada é por acaso, que na vida tudo tem um momento e um destino. E foi por conta dos 10 minutos de atraso hoje de manhã que eu não pude entregar o livro que prometi pra Laura antes da aula, tendo que fazer isso na hora do intervalo. E foi por que saí do lugar que sempre sento pra falar com a Laura, que estava do outro lado, que esbarrei com Thiago. Os olhares foram os mesmos daquela quarta-feira, que estive feliz por conta de seus olhos. Ele sabia meu nome, disse que perguntou a uma garota do colégio. Acho que isso demonstra algum interesse dele em mim. Não gostei muito quando ele disse que não conhecia ninguém e a Vanessa passou acenando. Ela é gente boa, mas é muito atirada, e isso irrita. Mas ele ficou puxando assunto e quando eu perguntei se ele gostava de ler, ele pensou um pouco, imagino que estivesse pesando numa balança imaginária o que seria mais conveniente, a verdade ou a mentira. E eu gostei porque ele optou pela verdade, gosto de verdades. Estava na cara que ele não gosta de ler, falou de Shakespeare como se fosse um livro qualquer, ninguém em juízo perfeito faria isso. Ele fez graça e me deixou sem graça também. Rimos pela primeira vez juntos. Foi uma conversinha de uns 10 minutos, mas pareciam que estavam durando horas, e eu guardei cada momento, cada sorriso, cada palavra. Nem fiquei tão envergonhada, imaginei muitos diálogos com ele em sonhos, e eu sempre ficava muda e imóvel, e no real foi exatamente o contrário. Já sei tanto sobre ele, mas estou ansiosa pra que ele me conte, na verdade verdadeira estou ansiosa mesmo é pra falar com ele de novo, nem que sejam coisas que eu já sei. Ah, pena que hoje é sexta e que amanhã não vou vê-lo. Mas ainda tem tempo, tem muito tempo.

Por Alice.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

encontro inevitável.

12 de fevereiro de 2004, uma manhã de sexta-feira, sorrisos e palavras.


Um dia de sol, com o céu estupidamente azul, sem sequer uma nuvem no céu. Thiago acordou bastante atrasado, por conta da noite anterior em claro, culpa da ansiedade que tirou seu sono. Alice era especial. E ele não podia estragar aquele momento. Correu pra pegar o metrô ás 7h e chegou ofegante na porta do colégio. Todos os alunos já estavam nas salas e ele se apressou pra não perder a primeira aula. Mesmo conhecendo quase todos da sala, falava pouco durante a aula, por falta de alguém que não conversasse só sobre futilidades. As meninas sempre tentavam uma aproximação, e apesar de charmosas, nenhuma lhe chamou tanto a atenção quanto Alice. Então, preferia o silêncio. Sentia falta de seus amigos antigos, das conversas que de tão interessantes sempre acabavam com alguém expulso de sala por não querer calar a boca, por querer defender sua opinião com unhas e dentes.
Mas, o tempo é sempre alheio a nossa vontade. E aquele tempo bom já passou, e Thiago queria que esse corresse pra falar logo com Alice, e só por isso, ele não fazia questão de se apressar. Optou por prestar atenção na aula, pra ver se esta passa logo. Esqueceu até de ficar olhando a cada cinco minutos para o relógio. E o sinal finalmente toca. Desceu com Bruno e Felipe em seus calcanhares, como sempre falando de garotas.
- Aquela loirinha, ela é a mais gata! E a amiga dela...
- Vocês viram a Alice? – Thiago interrompeu Felipe, olhando impaciente para os lados a procura dela.
Não precisou da resposta, o destino se encarregou de cuidar de tudo. Enquanto terminava a frase, uma Alice distraída folheava um livro e atravessava o pátio sem olhar para onde estava indo. Acabou esbarrando em Thiago, (que tipo de história idiota seria essa se ela não esbarrasse em Thiago? Afinal, todas as histórias de amor são iguais, a frase que sempre é dita já se tornou um clichê e mesmo tudo acontecendo como você provavelmente previu, devo avisar que esse não é um conto de fadas, ou seja, não há finais felizes) e eles se olharam, como naquele dia.
- Oi. – apanhou o livro e entregou a ela.
- Oi. – respondeu Alice, pegando o livro e abaixando a cabeça, envergonhada.
- Você é a Alice não é?
- Como você sabe? – perguntou ela, intrigada.
- É, eu hum... Perguntei sobre você pra uma garota da minha sala. – ele admitiu.
- Ah!
Thiago não podia deixar o assunto morrer, não podia deixar que aquele silêncio constrangedor pairasse sobre eles. Não queria que ela simplesmente girasse os calcanhares e continuasse a atravessar o pátio...
- Você sempre estudou aqui? – ele perguntou e fez uma cara de “porque diabos eu disse isso?” e ela percebeu, sem conseguiu conter o riso. E eles riram juntos, pela primeira vez.
- Na verdade não, vim pra cá ano passado.
- Ah, eu sou novo aqui, não conheço quase ninguém ainda. – Ele mal termina a frase e Vanessa passa chamando seu nome e acenando.
- É, deu pra perceber. – Alice sorri sem graça, ele não consegue decifrar seus pensamentos, e se apressa a mudar de assunto.
- Então, você gosta de ler?
- Sim, você gosta? – ela pergunta cheia de interesse.
Queria dizer sim e ter alguma coisa em comum com Alice, pra todos os dias eles conversarem sobre isso, pra todo dia ter a atenção daquela garota inteiramente pra ele. Mas, não queria mentir, nem fingir, se fosse pra gostar dele, que fosse do jeito que ele é.
- Sinceramente, nem um pouco. Mas minha mãe bem que queria!
- Minha Vó gostava muito, e sempre lia pra mim. Esse livro era dela. - Ela sorriu e afastou uma mecha de cabelo dos olhos, colocando-a atrás da orelha.
- Era?
- Ela se foi quando eu tinha nove anos. – disse encarando os sapatos.
- Eu sinto muito.
- Tudo bem, já faz muito tempo.
O sinal tocou de novo. Que mania chata essa do tempo de se apressar quando devia parar e nunca mais passar. Eles se olharam mais um pouco, e foi ele quem desviou o olhar dessa vez.
- Minha sala é pra lá. – ela apontou pro lado oposto ao que Thiago deveria ir.
- Então, a gente se vê.
- Ta, tchau.
Ele ficou imóvel no meio do pátio, com as mãos nos bolsos, olhando para o nada.
- Eu vi hein, já ta de olho nas gatinhas aqui do colégio. – brincou Bruno, dando um tapinha nas costas dele.
Thiago riu para o amigo e subiu as escadas, quando entrou na sala de aula, parou de repente se dando conta de que esqueceu de dizer seu nome para Alice. Mal sabia ele, que ela sabia muito mais do que apenas seu nome.

Por Narradora.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

e tudo muda, nada continua igual.


13 de fevereiro de 2004, sábado de tarde, e ele se deu conta do quanto tudo estava diferente.


Aos 12 anos eu repudiava aquela namorada que meu irmão tinha. Era benzinho pra cá, amorzinho pra lá... E quando não estavam grudados, eram os gritos ensurdecedores de brigas sem motivos que importassem muito. Nunca entendi aquele ciúme, aquela saudade, aquele afeto. “Cara, é louco, mas é bom, é muito bom... dá um sentido na vida da gente, entende?” Túlio respondia quando eu perguntava o que diabos ele estava fazendo deixando a vida dele de lado, as garotas, os amigos, tudo pra ficar com a Nanda. Ainda assim eu nunca entendi, e achava tudo aquilo um absurdo, pois antes dele arranjar aquela namorada, tinha nele um exemplo de como queria ser quando tivesse os meus 19. E o tempo passou, e eu agora, aos 17, entendo como é que ele se sente, e o porquê dele abdicar tudo por ela. Bom, mas isso foi só por conta de um acontecimento semana passada. Antes disso, me orgulhava em contar nos dedos dos pés e das mãos quantas eu havia beijado numa noite, sem sequer chegar em nenhuma garota. Mas agora, não vejo mais graça em pegar todas, não sinto nelas o que eu procuro, não sinto nelas o que encontrei na Alice. Entrei naquele colégio sem esperar muita coisa, até que me surpreendi com ela. Primeira vez que a vi, foi um dia desses na entrada da escola, fiquei olhando e ela retribuiu o olhar. Ficou vermelha e abaixou a cabeça, e aquela inocência, aquela pureza me chamou a atenção. Tanto que me detestei por nos primeiros segundos ter pensado dela, o que penso de todas as outras. Porque ela é diferente. Demorando mais um pouco naquele olhar, eu percebi. Ontem eu falei com ela, não sei o que me deu, eu quase nunca falo, sem querer me gabar, quase sempre são elas que vêm falar comigo. Mas eu sabia que Alice não viria, e eu não conseguia tirar os olhos, nem parar de pensar nela, então tive que falar. Ela me deixa apreensivo, então nem me pergunte o que me deu coragem, eu só sabia de alguma forma que era ela. E, definitivamente, é ela.


por Thiago.